‘Foi uma bomba para a igreja’, diz fiel sobre prisão de pastor traficante durante culto

Alexandre de Mendonça da Silva Filho, 33 anos, diácono da Igreja Batista Pentecostal Poço de Jacó, no Centro de Lauro de Freitas, se preparava para tocar a bateria num dos louvores durante o culto, na última sexta-feira (28). O templo estava lotado por volta das 20h. Entre os fiéis, a mulher e a filha de Alexandre, uma garota de 14 anos.

A pastora que comandava a celebração se aprontava para pregar a palavra. No entanto, policiais civis subiram primeiro no altar e, sem cerimônia, algemaram Alexandre. “Fizeram isso bem na frente de todos. A mulher e a filha estavam na primeira fileira. Foi uma agressão tão violenta”, disse uma fiel, que faz parte de liderança da igreja.

Do altar, Alexandre foi levado para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), na Pituba, de onde partiria depois para sua terra natal. Se em Lauro de Freitas ele era um homem de fé e empresário respeitado na vizinhança, a mais de 700 km de distância, na cidade de Limoeiro, no Agreste de Pernambuco, era o líder de uma quadrilha de traficantes. Contra ele pesam diversos crimes, incluindo assassinatos.

Três mandados de prisão foram expedidos contra ele e cumpridos por agentes do Departamento de Repressão a Crimes Organizados (Draco) da Bahia.

Ao Jornal do Commercio, a Polícia Civil de Pernambuco, onde ele já encontra-se custodiado, informou que Alexandre era “alvo prioritário, por ser de alta periculosidade”. Segundo a corporação, contra o traficante havia dois mandados de prisão em aberto e outros em andamento por homicídio, latrocínio e venda de drogas.

A prisão de Alexandre deixou os fiéis perplexos. “Nós nunca poderíamos imaginar que algo assim fosse acontecer, ainda mais num dia de culto. Foi uma bomba para a igreja”, relatou a liderança religiosa ouvida pela reportagem.

Seis policiais foram cumprir os mandados contra Alexandre na Igreja Poço de Jacó, situada na Rua Miguel Santos Silva.

“Estava ao lado da pastora quando dois policiais explicaram o que estavam fazendo na igreja. Enquanto isso, outros policiais já estavam no altar e um deles algemou Alexandre”, contou a mulher.

Pastor e empresário?
Membros da igreja explicaram que Alexandre, na verdade, era diácono, ou seja, “um ajudante do pastor, que, em algumas oportunidades, prega”. Assim, quem realmente está à frente da comunidade religiosa é uma pastora, que não teve o nome divulgado.

“E outra coisa: ele não é empresário. Ele trabalha num frigorífico e vende frutas e verduras no centro”, comentou o mesmo fiel que contestou a informação divulgada pela polícia sobre sua função na igreja.

Testemunho
Alexandre era uma pessoa reservada na igreja e poucos sabiam detalhes de sua vida pessoal. “Às pessoas que fazem parte da liderança, ele dizia que tinha algo a acertar com a Justiça, que precisaria ir para Pernambuco, mas tinha medo de ficar preso por lá, porque não tinha advogado”, declarou a mulher, que faz parte da liderança.

Questionada se em algum momento Alexandre contou quais crimes era acusado, a mulher respondeu que não. “No testemunho, ele só dizia que precisa responder por algo e que tinha medo de se apresentar à polícia. Talvez a pastora saiba mais sobre ele, afinal, ele era diácono dela”, comentou.

Servo 
Alexandre passou a frequentar a Igreja Poço de Jacó quando o templo era em outro endereço, também em Lauro. Isso foi há cinco anos. Ele, a mulher e a filha caminhavam quando passaram em frente e resolveram entrar. “Daí, o casal gostou e, junto com a criança, passaram a ir constantemente”, relatou uma das lideranças.

Um ano depois, Alexandre alcançou o status de diácono (‘quase pastor’) na igreja.

“Ele se dedicou muito à obra, evangelizando, aconselhando. À medida que você vai se doando para Deus, o pastor separa a ovelha para a obra. Foi o que aconteceu com ele”, disse.

Apesar de toda a situação que atualmente envolve Alexandre, lideranças da igreja disseram que o diácono hoje é outra pessoa, que não está mais envolvido com a criminalidade.

“Aqui recebemos todo o tipo de gente e não fazemos discriminação. Acredito que hoje ele é um servo de Deus. Uma pessoa convertida, transformada pelo Senhor”, reforçou uma das lideranças.

Vizinhos
A igreja está situada numa rua residencial e tem cultos às quartas e sextas-feiras às 19h e domingos às 18h. Alguns vizinhos disseram que souberam da prisão com a chegada da equipe do CORREIO.

“Não sabia. Por isso que hoje a igreja amanheceu fechada. Mesmo quando não é horário de culto, logo cedo, sempre tem alguém limpando, mas desde ontem (segunda) que está fechada. Estou surpresa. Um homem da igreja procurado até por homicídio”, disse a moradora de um prédio vizinho.

Já um outro morador disse que viu o momento que os policiais chegaram, na sexta-feira. “Todos à paisana. Todos chegaram de uma só vez. Parecia uma operação para pegar um grande bandido. E ele era um cara ‘na dele’. Passava e cumprimentava todo mundo. Jamais imaginaria que ele seria capaz de algo assim”, comentou.

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