Fim do cartão de crédito no Brasil? Novo sistema pode mudar a forma como brasileiros compram parcelado

Pix Parcelado, Pix Automático e pagamentos por aproximação avançam e começam a assumir funções que durante décadas dependeram dos cartões; entenda o que realmente pode acontecer

O cartão de crédito vai acabar no Brasil? A resposta, pelo menos por enquanto, é não. Não existe anúncio do Banco Central determinando o fim dos cartões, nem uma data estabelecida para que eles deixem de funcionar.

Fim do cartão de crédito no Brasil? Novo sistema pode mudar a forma como brasileiros compram parcelado
Fim do cartão de crédito no Brasil? Novo sistema pode mudar a forma como brasileiros compram parcelado

Mas existe uma transformação silenciosa no sistema financeiro brasileiro que ajuda a explicar por que essa possibilidade começou a ser discutida.

O Pix está incorporando justamente algumas das funções que fizeram do cartão de crédito um dos produtos bancários mais utilizados do país. Entre elas estão pagamentos por aproximação, cobranças recorrentes e, principalmente, a possibilidade de comprar parcelado usando crédito concedido pelo banco.

É neste último ponto que está a maior ameaça ao modelo tradicional dos cartões: o Pix Parcelado.

Pix já ultrapassou outros meios de pagamento

Os números ajudam a explicar o tamanho dessa transformação.

Segundo dados divulgados pelo Banco Central, o Pix respondeu por 54,7% da quantidade de transações de pagamento realizadas no Brasil no segundo semestre de 2025.

Dados mais recentes do próprio BC indicam que mais de 170 milhões de pessoas físicas, equivalente a cerca de 80% da população, já utilizaram o sistema. Apenas em janeiro de 2026 foram registradas mais de 7 bilhões de transações Pix.

O crescimento aconteceu em poucos anos. Criado pelo Banco Central e lançado em 2020, o Pix passou de ferramenta destinada principalmente a transferências entre pessoas para um amplo sistema de pagamentos utilizado por lojas, empresas, prestadores de serviços e consumidores.

Agora, a próxima disputa está no crédito.

O que é o Pix Parcelado?

O Pix tradicional depende da existência de dinheiro disponível na conta do cliente.

O Pix Parcelado muda essa lógica.

No modelo desenvolvido pelo sistema financeiro e cuja padronização faz parte da agenda do Banco Central, o consumidor pode contratar crédito para realizar uma transação Pix.

Na prática, funciona assim: o estabelecimento recebe o valor da compra integralmente, enquanto o consumidor paga posteriormente as parcelas para a instituição financeira que concedeu o crédito.

É uma lógica bastante parecida com aquilo que milhões de brasileiros fazem atualmente ao parcelar uma compra no cartão.

O Banco Central define o Pix Parcelado como um produto destinado a permitir a tomada de crédito associada a uma transação Pix, com recebimento integral do dinheiro pelo vendedor. A padronização da experiência do usuário continua entre os temas da agenda regulatória da autoridade monetária.

Alguns bancos e fintechs já oferecem modalidades próprias conhecidas como “Pix parcelado” ou “Pix no crédito”, mas as condições, taxas de juros e regras podem variar entre instituições.

Então o Pix Parcelado vai substituir o cartão de crédito?

Este é provavelmente o produto com maior potencial para substituir parte das compras atualmente realizadas no cartão de crédito, principalmente aquelas cujo objetivo do consumidor é apenas parcelar uma compra.

Imagine um celular de R$ 2.000.

Hoje, o consumidor normalmente precisa ter um cartão com pelo menos R$ 2.000 de limite disponível para fazer a compra parcelada.

Com uma operação de crédito vinculada ao Pix, o banco poderia analisar aquele cliente, liberar o financiamento da compra e enviar os R$ 2.000 imediatamente ao estabelecimento. O consumidor passaria a dever as parcelas diretamente ao banco.

Ou seja: o crédito continua existindo, mas o pedaço de plástico deixa de ser necessário para realizar a operação.

O próprio Banco Central afirmou que o objetivo do Pix Parcelado é estimular o uso do Pix no varejo para compras de maior valor e criar alternativas mais competitivas no mercado de pagamentos e crédito.

Pix Automático também ocupa espaço antes dominado pelo cartão

O parcelamento não é a única função do cartão que começa a enfrentar concorrência.

Assinaturas de streaming, academias, escolas, condomínios e diversos outros serviços costumam utilizar o cartão de crédito para cobranças recorrentes.

Desde 2025, porém, existe outra alternativa: o Pix Automático.

O consumidor concede uma autorização uma única vez e a empresa pode realizar cobranças periódicas por meio do Pix, seguindo as condições previamente autorizadas.

O sistema foi colocado em operação em junho de 2025 e foi criado justamente para facilitar pagamentos recorrentes.

Isso significa que uma empresa que antes precisava cadastrar o cartão de crédito do cliente para cobrar mensalmente uma assinatura pode utilizar o Pix Automático.

Mais uma função tradicional do cartão passa, portanto, a ter um concorrente.

Até a aproximação do cartão ganhou concorrente

Outro comportamento que ajudou a aumentar o uso dos cartões nos últimos anos foi o pagamento por aproximação.

Basta aproximar o cartão ou celular da máquina para concluir a compra.

O Pix também passou a oferecer pagamentos por aproximação. O Banco Central inclui o Pix por aproximação entre as funcionalidades destinadas a simplificar os pagamentos presenciais.

Com isso, três vantagens importantes dos cartões passam a encontrar alternativas dentro do ecossistema Pix:

parcelamento das compras, pagamentos recorrentes e pagamento rápido por aproximação.

É essa combinação, muito mais do que uma eventual decisão do governo, que pode reduzir a dependência dos brasileiros dos cartões no futuro.

Por que bancos e empresas teriam interesse nessa mudança?

Existe uma enorme infraestrutura por trás de uma compra realizada no cartão.

Participam da operação instituições emissoras, adquirentes, bandeiras, processadores e outros agentes.

O Pix utiliza outra infraestrutura de pagamentos e foi desenvolvido pelo Banco Central para oferecer transferências e pagamentos instantâneos entre contas.

Para empresas, novas formas de pagamento podem aumentar a concorrência e criar alternativas de cobrança. Para instituições financeiras, o crédito pode continuar sendo oferecido mesmo que a transação final não aconteça através de um cartão.

O Banco Central afirma que sua agenda de evolução do Pix busca justamente ampliar competição, inclusão financeira e eficiência no mercado de pagamentos.

Juros podem decidir a disputa entre cartão e Pix Parcelado

Existe, entretanto, uma questão que provavelmente será decisiva: quanto o consumidor pagará para parcelar pelo Pix?

Pix Parcelado não significa necessariamente parcelamento sem juros.

Quando existe concessão de crédito, a instituição poderá cobrar juros e outros encargos conforme as regras aplicáveis à operação. Por isso, antes de utilizar qualquer modalidade de Pix com crédito, será importante observar o Custo Efetivo Total (CET) e comparar com outras formas de financiamento.

Essa comparação pode determinar se será melhor usar Pix Parcelado, cartão de crédito, empréstimo pessoal ou outra linha de crédito oferecida pelo banco.

O cartão tradicional ainda possui uma vantagem extremamente relevante no mercado brasileiro: o parcelamento sem juros oferecido pelo comércio.

Dados da Abecs mostram que, no terceiro trimestre de 2025, 42,7% do valor movimentado no cartão de crédito correspondia a compras parceladas sem juros.

Para realmente substituir o cartão em larga escala, portanto, alternativas baseadas no Pix terão de competir também nessa área.

Cartão de crédito ainda movimenta centenas de bilhões

Apesar de toda a expansão do Pix, decretar a morte do cartão seria prematuro.

No primeiro trimestre de 2026, os pagamentos realizados com cartões movimentaram aproximadamente R$ 1,1 trilhão no Brasil, crescimento de 8,3% na comparação anual.

Somente os cartões de crédito movimentaram cerca de R$ 810,2 bilhões no período.

Foram aproximadamente 11,7 bilhões de transações com cartões em apenas três meses, uma média de 132 milhões de pagamentos por dia.

Ou seja, curiosamente, duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo: o Pix cresce de forma extraordinária e o mercado de cartões continua gigantesco.

Isso indica que a transformação provavelmente será gradual.

O cartão físico pode desaparecer antes do cartão de crédito?

Essa é uma possibilidade mais plausível.

O consumidor já pode cadastrar cartões em carteiras digitais e pagar com celular ou relógio sem carregar o cartão físico.

Ao mesmo tempo, Pix por aproximação e novas soluções baseadas em Open Finance podem reduzir ainda mais a necessidade de utilizar o plástico.

Nesse cenário, o produto “crédito” pode continuar existindo mesmo que o objeto chamado “cartão” seja utilizado cada vez menos.

O banco continuaria oferecendo limite e financiamento ao consumidor, mas esse crédito poderia ser utilizado diretamente por uma conta ou aplicativo.

É uma mudança importante de conceito: o produto principal deixa de ser o cartão e passa a ser a linha de crédito disponível para o cliente.

Open Finance pode acelerar essa transformação

Existe ainda outra peça importante nesta disputa: o Open Finance.

O sistema permite a integração de informações e serviços entre diferentes instituições financeiras mediante autorização do consumidor.

Segundo o Banco Central, uma das etapas de evolução do Open Finance está justamente relacionada aos serviços de crédito e à iniciação de pagamentos. A autoridade monetária considera sua expansão uma das prioridades do sistema financeiro.

No futuro, essa estrutura pode facilitar situações em que diferentes bancos disputam a concessão de crédito para uma compra sem que o consumidor precise necessariamente possuir um cartão daquela instituição.

O que poderá substituir o cartão de crédito?

Não deverá existir apenas um substituto.

O que está surgindo é um conjunto de produtos capazes de executar separadamente funções que atualmente estão concentradas no cartão.

Para pagamentos à vista, o Pix tradicional já ocupa enorme espaço.

Para assinaturas e contas recorrentes, existe o Pix Automático.

Para compras presenciais rápidas, existe o Pix por aproximação.

E para o crédito e parcelamento, a alternativa com maior potencial é o Pix Parcelado, ou outras linhas de crédito integradas diretamente à conta bancária.

O resultado pode ser um sistema no qual o consumidor não pergunta mais “qual é o limite do meu cartão?”, mas simplesmente “quanto de crédito meu banco liberou para esta compra?”

Afinal, quando o cartão de crédito vai acabar no Brasil?

Não existe uma data.

Também não existe atualmente qualquer determinação oficial para acabar com os cartões de crédito.

Na verdade, os dados mostram que o mercado continua movimentando centenas de bilhões de reais e crescendo no país.

O que pode estar começando é algo diferente: o fim da necessidade de usar o cartão para acessar crédito.

Se Pix Parcelado, Pix Automático, pagamentos por aproximação e Open Finance conseguirem oferecer uma experiência simples e condições financeiras competitivas, parte das compras que hoje passam pelas bandeiras e maquininhas poderá migrar para outras infraestruturas.

Por isso, talvez a pergunta mais correta não seja quando o cartão de crédito vai desaparecer.

A pergunta é: quando o brasileiro deixará de precisar dele?

E essa transformação já começou.

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