Grandes bancos brasileiros estão mais seletivos na concessão de empréstimos, cartões e crédito pessoal; instituições passam a priorizar clientes de maior renda e operações com garantia diante do avanço da inadimplência
Conseguir empréstimo, aumento no limite do cartão de crédito ou aprovação de crédito pessoal pode estar ficando mais difícil para uma parcela significativa dos brasileiros. Grandes bancos passaram a adotar uma postura mais cautelosa na concessão de dinheiro, especialmente em operações sem garantia e entre consumidores de renda mais baixa.

O movimento ficou ainda mais evidente após a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026. Santander, Itaú, Bradesco e Banco do Brasil deram sinais de que a qualidade do crédito passou a ser uma das principais preocupações das instituições financeiras.
O caso mais claro envolve o Santander Brasil. Segundo reportagem da Reuters baseada em declarações dos executivos dos maiores bancos do país, a instituição reduziu sua exposição aos clientes considerados de maior risco, especialmente aqueles com renda mensal inferior a R$ 4 mil.
A decisão não significa que todo brasileiro que recebe menos de R$ 4 mil será automaticamente impedido de conseguir crédito. Também não existe uma determinação do Banco Central estabelecendo essa faixa como limite para empréstimos. O que está acontecendo é um endurecimento da análise de risco, que pode tornar a aprovação mais difícil para determinados perfis.
Santander coloca renda de R$ 4 mil no centro da estratégia
O diretor financeiro do Santander Brasil, Carlos Muñiz, foi direto ao comentar a estratégia adotada pela instituição. Segundo ele, abaixo da faixa de R$ 4 mil, o banco não pretende disputar determinados clientes nas atuais condições de mercado.
O Santander vem diminuindo justamente a participação dos tomadores considerados mais arriscados e ampliando o foco em produtos que possuem algum tipo de garantia, como determinados financiamentos e operações respaldadas por ativos.
Essa mudança atinge potencialmente uma parcela enorme da população brasileira. Dados analisados pelo FGV IBRE mostram que cerca de 70% da população ocupada recebe menos de dois salários mínimos, grupo que também apresenta exposição significativa a modalidades caras, como cartão de crédito rotativo e crédito pessoal.
Mas o Santander não está sozinho.
Itaú e Bradesco também estão mais cautelosos
O presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, alertou que o volume de crédito distribuído no mercado chegou a um nível elevado em relação à capacidade das famílias de assumir novas dívidas.
Diante desse cenário, o Itaú passou a favorecer operações com garantia e a demonstrar maior cautela no crédito ao consumidor sem garantia.
No Bradesco, o discurso é semelhante.
O presidente Marcelo Noronha afirmou que o apetite do banco para clientes de menor renda é hoje significativamente menor do que já foi no passado. A instituição também aumentou a presença de garantias em sua carteira de crédito.
Na prática, isso ajuda a explicar uma situação que muitos consumidores podem começar a perceber nos aplicativos dos bancos: limites menores, empréstimos pré-aprovados desaparecendo, valores oferecidos mais baixos ou taxas de juros menos atraentes.
A aprovação continuará dependendo de cada instituição e do perfil individual do consumidor.
Por que os bancos estão fechando a torneira?
O principal problema está no aumento do risco de inadimplência.
Dados do Banco Central mostram que, em maio de 2026, a inadimplência do crédito destinado às pessoas físicas chegou a 5,6%, aumento de 1,2 ponto percentual em 12 meses.
Quando considerados especificamente os recursos livres concedidos às famílias, a inadimplência alcançou 7,6%.
Outro número chama ainda mais atenção: o endividamento das famílias estava em 49,8% da renda disponível, enquanto o comprometimento mensal da renda chegou a 28,2%.
Ou seja, uma parte considerável do dinheiro que entra na casa do brasileiro já está comprometida com prestações, empréstimos e financiamentos anteriores.
Quando o banco percebe que uma pessoa já destina uma parcela elevada do salário ao pagamento de dívidas, conceder um novo empréstimo se torna mais arriscado, mesmo quando o consumidor ainda está pagando as contas em dia.
Juros do crédito para famílias continuam muito altos
Além da maior dificuldade para conseguir dinheiro emprestado, quem consegue crédito ainda encontra taxas elevadas.
Segundo o Banco Central, a taxa média do crédito livre às famílias estava em 62,8% ao ano em maio de 2026. Em apenas 12 meses, houve aumento de 3,8 pontos percentuais.
O cenário ocorre mesmo depois de o Comitê de Política Monetária reduzir, em agosto, a taxa Selic para 14% ao ano. Apesar da redução, os juros básicos permanecem em um patamar elevado e continuam afetando o custo dos empréstimos e financiamentos.
Para o consumidor, isso cria uma combinação complicada: o banco está mais rigoroso para emprestar e, quando aprova o crédito, o custo pode continuar alto.
Empréstimos com garantia devem ganhar espaço
A mudança de estratégia ajuda também a entender por que produtos como crédito consignado, financiamento de veículos, financiamento imobiliário e empréstimos com garantia podem ganhar preferência dentro das instituições financeiras.
Nesse tipo de operação, o banco possui alguma proteção adicional caso o cliente deixe de pagar.
No consignado, por exemplo, as parcelas podem ser descontadas diretamente do salário ou benefício, dependendo da modalidade. No financiamento de veículo ou imóvel, existe um bem vinculado à operação.
Já um empréstimo pessoal sem garantia ou um limite elevado no cartão oferece ao banco uma proteção bem menor em caso de inadimplência.
É justamente esse tipo de crédito que tende a ser analisado com mais cuidado durante períodos de deterioração da qualidade das carteiras.
Ter score alto pode não ser suficiente
Outro efeito desse cenário é que o score de crédito sozinho não garante a aprovação de um empréstimo.
Os bancos analisam uma combinação de informações que pode envolver renda, histórico de pagamentos, dívidas existentes, relacionamento com a instituição, movimentação financeira, comprometimento da renda e características da operação solicitada.
Por isso, uma pessoa pode estar sem restrições no CPF e possuir um bom score, mas ainda assim receber uma negativa.
Com os bancos mais preocupados com risco, a capacidade real de pagamento tende a ganhar ainda mais peso.
Crédito não acabou, mas está mudando de endereço
Apesar do endurecimento, os números do Banco Central não mostram um desaparecimento do crédito.
Em maio, o estoque de crédito livre para pessoas físicas atingiu aproximadamente R$ 2,5 trilhões, crescimento de 11,7% em 12 meses. Parte importante desse avanço veio justamente do crédito consignado para trabalhadores do setor privado e servidores públicos, além das operações realizadas no cartão à vista.
Isso revela uma diferença importante: os bancos não deixaram simplesmente de emprestar dinheiro.
O que está mudando é para quem, em quais condições e por meio de quais produtos as instituições querem emprestar.
A tendência observada nos grandes bancos aponta para maior preferência por consumidores considerados de menor risco, clientes de renda mais elevada e empréstimos que oferecem algum tipo de garantia.
Para milhões de brasileiros de renda baixa ou média, especialmente aqueles já comprometidos com cartão, financiamento e empréstimos anteriores, conseguir dinheiro novo pode exigir cada vez mais análise — e custar mais caro.






